Após assistir a um filme em streaming, participar de uma videochamada com alguém em outro continente ou simplesmente acessar o e-mail, a maioria das pessoas tem uma ideia de que a internet e a tal “nuvem”, são coisas etéreas, flutuando no ar, talvez via satélite… A verdade, no entanto, é muito mais fascinante… e não está no céu. O segredo está nos cabos submarinos que repousam no leito marinho.
Na verdade, a vasta maioria de todo o tráfego de dados global — estima-se que mais de 95% — viaja por uma rede complexa de cabos submarinos, de fibra óptica de alta tecnologia, que se encontra no fundo escuro e frio dos oceanos. Esses cabos são a verdadeira “espinha dorsal” da economia digital.
Mas o que exatamente são esses cabos submarinos? Como eles são instaladas, a quilômetros de profundidade, e o que acontece quando um deles se rompe?
O que tem dentro de um cabo submarino?
À primeira vista, um cabo submarino pode ser decepcionante. Em águas profundas, onde o risco de danos é menor, muitos desses cabos têm a espessura de uma mangueira de jardim, com diâmetro variando de 3 a 7 centímetros.
Embora o design exato varie, um cabo moderno sempre possui várias camadas:
- O Núcleo (fibra óptica): no centro absoluto estão os filamentos de fibra óptica, cada um com a espessura de um cabelo humano. São eles que transportam os dados.
- Vaselina: gel especial que preenche os espaços para bloquear qualquer entrada de água em caso de fissura.
- Condutor de cobre: camada de cobre que envolve as fibras.
- Armadura de aço: fios de aço trançados que dão resistência mecânica ao cabo, protegendo-o contra tração e impactos.
- Revestimento de polietileno: camada externa, de plástico super-resistente, que isola todo o conjunto da água salgada corrosiva.
Perto da costa, onde certamente o risco de danos é muito maior, os cabos recebem camadas extras de blindagem de aço, tornando-se muito mais grossos e pesados.
O segredo da fibra óptica
Certamente o componente no coração do cabo é a fibra óptica. Ela funciona com base em um princípio da física chamado “reflexão interna total”, devido a sua composição.
Em síntese, os dados são convertidos em pulsos de luz, que são enviados pelo núcleo da fibra ótica O revestimento externo age como um espelho perfeito, fazendo com que essa luz ricocheteie internamente por milhares de quilômetros sem “vazar”.
Por que os cabos submarinos também conduzem eletricidade?
Se a fibra óptica transmite luz, por que o cabo precisa de uma camada de cobre para eletricidade?
A resposta está nos repetidores, também chamados de amplificadores ópticos. Embora a fibra seja incrivelmente eficiente, o sinal de luz inevitavelmente enfraquece ao longo destas enormes distâncias transoceânicas. Desta forma, instala-se um repetidor a cada 70-80 quilômetros, para amplificar o sinal.
Todo esse sistema de repetidores no fundo do oceano precisa de energia. Por isso, o cabo submarino é um sistema híbrido, carregando dados e energia de alta tensão. Envia-se uma corrente elétrica de milhares de volts pelo condutor de cobre, alimentando todos os amplificadores ao longo da rota.
Como os cabos submarinos são instalados no fundo do mar?
O processo de instalar milhares de quilômetros de cabo no fundo do oceano é feito por navios altamente especializados, chamados navios cabeleiros (cable layers, em inglês) .
Os navios cabeleiros
Esses navios são essencialmente fábricas flutuantes. Eles carregam milhares de quilômetros de cabo, cuidadosamente enrolados. Eles navegam em uma rota exata a velocidades baixíssimas, enquanto “desenrolam” o cabo no oceano.
Em águas profundas, onde o leito marinho é calmo, o cabo simplesmente afunda e repousa sobre o solo oceânico, sem ser enterrado, pois a rota é mapeada para evitar montanhas submarinas, vulcões ou falhas geológicas.
O desafio de chegar à praia
Curiosamente, a parte mais difícil da instalação não é no meio do oceano, mas sim nos últimos quilômetros perto da costa.
Os grandes navios cabeleiros não conseguem se aproximar da praia. Para transpor essa faixa crítica, os engenheiros usam uma técnica amarrando o cabo a uma longa fileira de bóias, fazendo com que ele flutue na superfície. Pequenos barcos-reboque, então, puxam o cabo até a praia.
Sabe-se que 90% das ameaças aos cabos (veremos a seguir) ocorrem em águas rasas. Dessa forma, perto da costa, os cabos não podem simplesmente repousar no fundo. Eles precisam ser enterrados. Próximo à praia, o cabo passa para dentro de uma vala que o leva até a Estação de Pouso de Cabo (Cable Landing Station), sendo este um edifício seguro que conecta o cabo submarino à rede de internet terrestre do país.
Por onde passam os cabos submarinos? O mapa da internet no Brasil
Acima de tudo, a geografia dos cabos submarinos determina a velocidade de conexão. Devido à sua posição geográfica, a cidade de Fortaleza é o ponto do Brasil mais estratégico em proximidade com América do Norte, Europa e África. Isso a tornou o local de pouso mais eficiente e de menor latência para conectar o continente sul-americano ao resto do mundo.
Como resultado, Fortaleza é hoje o segundo hub de cabos submarinos mais conectado do mundo, abrigando a chegada de 16 a 18 cabos de altíssima capacidade. Estima-se que mais de 90% de todo o tráfego de dados da internet do Brasil passe pela capital cearense.
Os perigos que ameaçam sua conexão
Apesar de toda a blindagem, esses cabos são surpreendentemente vulneráveis.
Os verdadeiros vilões: âncoras e redes de pesca
A esmagadora maioria das rupturas de cabos — mais de 90% — não é causada por desastres naturais, mas sim por atividades humanas acidentais. Âncoras de navios e redes de pesca de arrasto são os principais inimigos da internet. Um navio que lança sua âncora no lugar errado pode prender e romper um cabo, cortando instantaneamente o fluxo de dados.
O mito dos tubarões
Uma das lendas mais famosas da internet é que os tubarões atacam os cabos. Isso é parcialmente verdade, mas não pelo motivo que se imagina. No passado, houve incidentes registrados de tubarões mordendo os cabos.
A suspeita é que o campo eletromagnético gerado pela alta tensão que flui no condutor de cobre os atraíam. Os tubarões, que caçam usando sensores para detectar os campos elétricos emitidos por suas presas, eventualmente confundiam os cabos com peixes grandes. Hoje, as blindagens dos cabos isolam de forma muito melhor esse campo, tornando mínimo o risco de ataques por tubarão.
Sabotagem
Atualmente, uma ameaça preocupante é a sabotagem deliberada, pois a infraestrutura de cabos é uma vulnerabilidade da segurança nacional. Incidentes recentes, como o corte de múltiplos cabos no Mar Báltico, levantaram suspeitas de atos de sabotagem.
Como se conserta cabos submarinos rompidos, no meio do oceano?
Quando um cabo se rompe, o conserto é uma operação de emergência cara e complexa.
Passo 1: Encontrar a falha. Da estação em terra, engenheiros enviam um pulso de luz pela fibra. No ponto exato da ruptura, a luz reflete de volta. Desse modo, medindo o tempo desse reflexo, eles calculam a distância exata da falha, com precisão de metros.
Passo 2: A cirurgia no navio. Um navio cabeleiro vai ao local e utiliza um ROV (Veículo Operado Remotamente) — um robô submarino — para mergulhar, localizar o cabo e trazer as duas pontas rompidas para a superfície.
Passo 3: A emenda por fusão. A bordo do navio, ocorre a parte mais delicada. Um técnico precisa, manualmente, emendar cada fibra de vidro, individualmente, usando um microscópio de alinhamento e arco elétrico de precisão. Repete-se este processo para cada fibra do cabo.
Conclusão: a engenharia dos cabos submarinos, por trás do “play”
Em conclusão, a “nuvem” é uma das maiores e mais impressionantes maravilhas da engenharia moderna. Uma rede física global que exige bilhões de dólares, navios colossais e uma precisão cirúrgica para ser construída. Tudo para garantir que, quando você apertar o play, o conteúdo do outro lado do mundo chegue até você instantaneamente.
Da próxima vez que você enviar uma mensagem, jogar online ou assistir a um seriado, lembre-se de que sua conexão não está flutuando magicamente no ar. Surpreendentemente, ela está viajando na velocidade da luz, por meio de filamentos de vidro, envoltos em aço e cobre, no fundo escuro do oceano.
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Fontes Consultadas
- https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/negocios/conheca-a-infraestrutura-de-cabos-submarinos-que-faz-de-fortaleza-a-segunda-cidade-mais-conectadas-do-mundo-1.3423308 (Diário do Nordeste)
- https://www.feiboer.com.cn/pt/news/underwater-fiber-optic-cables/ (Feiboer)
- How The Internet Travels Across Oceans
- https://submarine-cable-map-2025.telegeography.com/ (TeleGeography)